A resposta mais rápida a esta pergunta está na própria obra do fundador da Psicanálise. Todos “terão de aprender a conhecer a análise pela única via possível, submetendo-se a uma análise eles próprios” (Freud, 1924).
Entretanto, a ideia central destas linhas é compartilhar um pouco mais sobre a formação de um psicanalista. Esta é uma dúvida recorrente — e genuína — de quem é leigo na Psicanálise e desconhece o percurso ético necessário seguido por quem se propõe a ocupar a poltrona do analista.
Quem se dedica à leitura das obras de Sigmund Freud encontrará, em diversos textos, o direcionamento de uma formação baseada em um tripé constituído por: estudos teóricos, análise pessoal e supervisão clínica.
Em 1924, no texto A Questão da Análise Leiga, Freud escreveu quase um tratado sobre a formação do analista e a defesa dos institutos de psicanálise: “[…] os candidatos se submetem eles próprios à análise, recebem instrução teórica, com aulas em todos os assuntos relevantes para eles, e desfrutam da supervisão de analistas mais velhos e experientes, quando lhes permitem fazer as primeiras tentativas em casos mais leves. Calcula-se aproximadamente dois anos para essa formação. Naturalmente, após esse tempo o indivíduo é apenas um iniciante, não é ainda um mestre […]”.
Desde o início, os colegas psicanalistas e o próprio fundador da Psicanálise sempre foram reticentes em proteger a psicanálise das universidades, evitando que ela fosse absorvida como um campo restrito da medicina ou da psicologia.
Então, qual é o programa de ensino teórico pensado para a formação de um psicanalista? No mesmo texto citado acima, Freud aponta o caminho: “[…] deve abranger material das ciências humanas, de psicologia, história da civilização, sociologia, e também da anatomia, biologia e história da evolução. Nele haverá tanta coisa a ensinar, que se justifica deixar fora da aula o que não tem relação direta com a atividade analítica e pode contribuir apenas indiretamente, como qualquer outro estudo, para o treino do intelecto e da capacidade de observação”.
Nenhum curso universitário forma um psicanalista
Observe que os trechos trazidos até aqui demonstram que a formação teórica de um psicanalista não passa, necessariamente, por uma graduação. Embora a universidade seja um espaço importante para a circulação de saberes, apenas formar-se em Psicologia não basta para que alguém atue com o método terapêutico. O trabalho principal de formação está na própria análise. Da mesma forma, nenhum curso on-line de poucas horas certificará que você está apto a atender.
Quem já teve a oportunidade de conversar ou estar presente em um ambiente com um psicanalista já deve ter ouvido a apresentação deste como: “meu percurso na psicanálise…”. Essa frase nasce da compreensão de que não há um acabamento, um encerramento do processo de aprendizagem da técnica e da teoria.
Não é sobre abordagem ou linha psicanalítica; é sobre ética
Cada psicanalista, em seu tempo, com suas capacidades e limitações, fará um percurso único em seu processo de análise pessoal e em seu envolvimento nas escolas, institutos ou coletivos de psicanálise. É aí que entra a questão do laço social estabelecido entre pares e o reconhecimento destes de que aquele ou aquela é, de fato, um psicanalista.
No dia a dia da clínica, o profissional participa de grupos de estudos, discussão de casos clínicos e supervisão individual ou em grupo. Passa por sua análise pessoal e também pelo contato com seus próprios analisandos e analisandas.
Portanto, não é — e jamais será — sobre um certificado ou uma carteirinha. Fique atento caso esteja buscando um lugar para sua formação teórica e lhe prometam mudança de profissão e sucesso imediato. Esta não é — repito — a prática ética da Psicanálise.
Agora, um convite à reflexão: se você encontrou um amigo, um colega de trabalho ou foi impactado por vídeos nas redes sociais prometendo mudança rápida de carreira via Psicanálise, mas nunca passou por uma análise própria e se vê seduzido por este discurso, o que isso diz sobre você? Comece buscando um psicanalista.